O medo de enfrentar a dor

Esta semana conheci uma pessoa que chegou ao meu consultório com uma fala que era inédita na forma direta de dizer: “Eu sei que preciso fazer psicoterapia, mas eu estou com muito medo”.

Minha reação, apesar de surpresa com tanta sinceridade, foi de acolhimento ao seu discurso dolorido e honesto.

Ela então, me contou sobre sua vida, sobre as dores que viveu e para as quais ainda não tinha parado para elaborar e encarar as situações que teve que viver, sem tempo para olhar de frente para tudo o que perdeu.

Quem de nós nunca escondeu de si mesmo aquele incômodo que pesa no peito após uma perda? Quem nunca escondeu de si a dor de uma mudança “para pior” que fomos obrigados a viver? Quem nunca deixou para “pensar depois” na reviravolta que a vida deu, sem avisar e sem que tivéssemos nos preparado para ela?

Viver é correr riscos, já disse algum filósofo, mas correr riscos podem doer profundamente. E em nossa cultura, não aprendemos a viver nossas dores. Pelo contrário, aprendemos a evitá-la com os excessos de todas as ordens. Trabalhamos mais após a morte de alguém querido, comemos mais após o rompimento de um namoro, bebemos mais após a perda de um emprego, usamos mais remédios após a mudança (para pior) do status econômico. Somos treinados para evitar a qualquer custo a dor, o choro, o sofrimento. E fazemos isso com racionalidade. Seguimos em frente e é simples assim.

Porém, após algum tempo escondendo a dor embaixo do tapete, algo começa a crescer junto com a dor não sentida e começa a se acumular dentro de nós. Há um volume de angústia que se transforma num incômodo no peito, um choro inesperado por um motivo tolo, uma dor de cabeça que nunca passa, enfim, começamos a perder aquela impressão de acomodamento, de que “está tudo bem” e passamos a ganhar incômodos constantes.

Quando percebemos que temos um problema, mas não sabemos como resolvê-lo é a hora de buscar ajuda. E a psicoterapia é uma das opções mais seguras que temos ao nosso alcance, já que é feita por profissionais que se qualificaram para ouvir e interpretar a dor.

Não é fácil se encarar de frente e se conhecer. Este processo exige coragem e disposição, exige entrega e confiança de que ao falar sobre as dores mais profundas, estaremos nos libertando de um incômodo que nos impede de seguir em frente, apesar de parecer não incomodar no inicio. Depois de um tempo evitando a dor, ela começa a tomar forma e cresce.  E dói ainda mais que antes. Portanto encarar a dor é fundamental para que os incômodos internos sejam elaborados e a qualidade de vida seja melhor.

Viver a dor, entender os por quês e os porquês, se perdoar de eventuais motivos de culpa, enfim, lidar com tudo isso, com a orientação do psicoterapeuta é a saída possível para uma vida mais satisfatória e plena.

Esta pessoa começou seu processo de psicoterapia e tem trabalhado de coração aberto para que juntas possamos entender tudo o que foi a sua vida nos últimos anos. Ela tem sentido menos medo e mais confiança. Tem percebido que as respostas estão dentro dela e que eu apenas seguro o espelho para que ela possa se olhar, se aceitar e trazer para si novas respostas, novos caminhos e novos olhares.

Este é o ganho. Viver a dor em sua profundidade e a partir dela, aprender uma nova forma se ser mais feliz.

 

 

 

 

 

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