A Madrasta na família

A madrasta.

Presente no imaginário humano e tida como malvada pelos contos de fadas, a figura da madrasta merece atenção e entendimento. Geralmente (e claro que há exceções para tudo nessa vida) são mulheres que não escolhem se apaixonar por homens que já têm filhos com outras e acabam aceitando este papel, que faz parte do pacote da relação.

Acompanho histórias complicadas em relação a este triângulo pai – mãe – madrasta (ou padrasto) e vejo que os adultos quase sempre são completamente despreparados para lidar com a situação de forma adequada.

Aqui tomarei como referência a situação mais comum de um casal heterossexual que se separa e cujo pai se relaciona novamente, pois quero falar da madrasta especialmente.

É claro que quando me refiro ao papel de madrasta, eu parto do princípio de que cada caso é único, exclusivo e envolve suas particularidades, principalmente no que se refere à história do divórcio, como este rompimento foi elaborado antes pelos pais da criança, como a mãe lida com a outra mulher que também convive com seus filhos, enfim. Mas a minha proposta aqui é trazer o tema à reflexão para nos imaginarmos nos quatro principais papéis que envolvem a situação e chegarmos às próprias conclusões.

SE HÁ MADRASTA, HÁ CRIANÇA

Crianças não escolhem ter seus pais separados (a não ser que sejam violentadas). E também não escolhem que seus pais tenham novos relacionamentos com novas pessoas. Infelizmente são poucos os pais que se preocupam com esta transição entre uma situação e outra, e acabam impondo a presença da madrasta (ou do padrasto) sem que haja muito esclarecimento sobre isso.

O melhor a fazer sempre é buscar ajuda de psicólogos infantis ou de casal, para passar por este período com a orientação profissional de quem estuda muito este assunto. Mas caso não seja possível, conversar de forma tranquila, explicando à criança as mudanças pelas quais ela vai passar, já é de grande valia, principalmente quando se tratam de crianças pequenas. Adolescentes também costumam reagir mal quando não é claro para eles que os pais são separados e que viverão novas vidas. Portanto, ao lidar com situações deste tipo, converse, explique, pergunte se a criança entendeu, o que ela sente e conte a ela de forma adequada à idade dela como você se sente também. Só assim é possível viver a nova vida de forma mais equilibrada e com harmonia.

A MÃE

O texto que me inspirou a escrever é um post da internet em que a mãe que agradece à madrasta por cuidar de seu filho. Esta é a situação ideal e a exceção das relações que envolvem estes papéis.

As mães precisam de tempo. Tempo para elaborar a separação, para se regenerar dos sentimentos que ficaram pelo casamento desfeito e de tempo para lidar com a nova realidade. E será no tempo dela que poderá haver a apresentação da madrasta, a conversa ou até mesmo a amizade.

Quanto mais forem maduras emocionalmente, lidando bem consigo mesmas e com seus sentimentos, mais conseguem superar as dificuldades e se colocar de forma equilibrada na relação com o pai de seu filho e com a madrasta. Nem sempre haverá convívio amistoso, mas jamais deve haver intriga para as crianças.

Dificuldades emocionais todos nós temos, mas também devemos ter bom senso de buscar amadurecimento emocional e psicológico para lidar com as situações ruins da vida. Cabe a mãe acolher seus sentimentos, por mais difíceis de lidar que sejam, pois quando há filhos, é responsabilidade dos adultos lidar de forma adulta com os problemas que envolvem seus filhos. Também caberá à mãe acolher os sentimentos de seus filhos crianças ou adolescentes, pois espera-se que ela seja a parte forte da relação, tanto quanto deverá ser o pai.

A mãe adequada nem sempre é amiga da madrasta, mas ela tem muito claro dentro de si qual é o seu papel a importância dele diante dos filhos e do pai deles e sabe que este papel não tem competidores, é único e exclusivo.

O PAI

Atendo alguns pais separados e casados pela segunda vez com filhos pequenos. E vejo o sofrimento e a angústia pela qual eles passam quando aparecem problemas de convívio na nova realidade deste homem. O pai nesta hora tem seu papel modificado também e sua maior preocupação geralmente envolve o acolhimento para as duas mulheres, além dos filhos. E cabe a ele nesta situação a que me refiro, ser o ponto de equilíbrio entre as duas mulheres.

Em relação à ex-mulher, ele precisa entender que não é tarefa fácil dividir o convívio dos filhos com uma pessoa que ela não conhece (ou conhece muito pouco). Cabe ao pai ter critérios que considere este convívio em sua escolha afetiva e também cabe ao pai conversar com a nova mulher sobre sua separação e sobre como as coisas aconteceram. Informação traz segurança e conversar sem mentir (nem omitir) é fundamental para que o novo relacionamento comece bem. Entender que a nova mulher não escolheu a situação pode trazer boas reflexões a respeito de suas eventuais dificuldades.

A mãe dos filhos de modo geral precisa ser esclarecida sobre quem é a namorada, sobre rotinas de passeios, viagens e finais de semana para que se sinta segura e cabe ao pai levar estas informações com respeito e acolhimento. Mágoas e ressentimentos fazem parte do contexto da separação do casal e caberá aos dois resolver os conflitos que surgirem. Os casais que se separam mantendo bons sentimentos e bom entendimento são exceção e devem comemorar.

A grande maioria se separa em meio a brigas e discussões muito ofensivas, desconfianças, ciúmes e tudo o que sabemos que envolve este assunto. Não é fácil mesmo. Por isso, buscar ajuda profissional sempre que preciso é importante.

A criança precisa muito do acolhimento do pai. Neste caso, é ele que está num novo relacionamento e a criança precisa ser apresentada aos poucos a esta nova mulher. O ideal é que o pai primeiro converse sobre o namoro por um tempo e depois que a criança já tem a ideia de uma nova relação, é que ela deve ser apresentada para a namorada, aos poucos e na medida de seu entendimento. Claro que cada caso é um caso particular, mas de modo geral conversar e responder a todas as dúvidas da criança é fundamental para seu entendimento emocional da nova vida, do novo convívio.

Quando acontece algum conflito nestas três situações e o pai percebe que precisa de orientação, ele não deve evitar a busca por ajuda, de preferência profissional, pois são pessoas que entendem do assunto, que estudam e se atualizam sobre o tema e podem orientá-lo da melhor forma possível.

A MADRASTA

Quanto mais maturidade emocional esta pessoa tiver, melhor ela saberá lidar com a criança e com a ex-mulher. O papel da madrasta se refere à criança, por isso não entrarei em temas sobre infidelidade, que se refere ao vinculo do casal e não tem a ver com os filhos do casal.

A madrasta é a mulher que se envolve com alguém que tem filhos de outra relação. É uma mulher que entra numa história que já começou antes de sua chegada, que se relaciona com parte de uma relação que já existia entre a mãe, o pai e a (s) criança (s). Ela precisa ter disponibilidade emocional suficiente para acolher esta criança que é filha do homem que ama, se dispor a enfrentar as dificuldades da criança (já que ela também é a parte adulta da história) e em alguns casos, as dificuldades da mãe.

Em alguns casos não é fácil, mas é possível com muita conversa e acolhimento. E quanto mais claras forem as regras e as intenções da nova relação com este pai, mais forte será o vínculo que ela poderá estabelecer com a criança. Geralmente as madrastas estão dispostas a acolher os filhos do marido, a dar amor e cuidar das crianças e quanto mais maduras emocionalmente forem estas mulheres, mais claro elas terão o significado de seu papel e não confundirão com o papel de mãe a sua presença na vida dos pequenos.

A madrasta malvada existe e esta qualidade diz respeito a uma imensa dificuldade em lidar com seus sentimentos e com o reconhecimento de si mesma. A boa madrasta, esta sim é a imagem que eu uso para escrever sobre este vínculo que pode ser construído com base no sentimento genuíno de amor pela criança. Esta mulher sabe se seu papel e sabe que pode ser também um modelo afetivo importante na vida da criança.

Minha experiência no atendimento de adultos que tiveram madrastas me mostra que quando a relação é transparente, sem más intenções, com compreensão e respeito, o vínculo é forte o suficiente para que a relação permaneça independente da relação da madrasta com o pai da criança.

Vínculos de amor permanecem a vida toda. É só saber construí-los com respeito, sabedoria e maturidade. Podem acreditar!

 

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